TIA CIATA NA FIESP

tia Ciata abriu o seu terreiro e garantiu o samba frente à repressão

*tia Ciata abriu o seu terreiro e garantiu o samba frente à repressão 

 

O pior cego é aquele que não quer ver.

Voltando de mais uma manifestação contra o golpe, passei em frente à Fiesp. A “nossa” não tinha muita gente, pelo menos não muita gente em proporção à quantidade de policiais nos impedindo até de passar pelo vão do Masp.

Com certo medo do que está por vir, olhando pro imenso carro de som parado em frente à Fiesp com aqueles bonecos infláveis horrendos – hoje o pato não foi, provavelmente pros patrocinadores da ‘manifestação’ não terem que pagar direito autoral -, vejo tia Ciata.

Fiquei pensando se os músicos que estavam tocando no caminhão de som da Fiesp tinham visto aquela homenagem à tia Ciata bem ali em frente. Aliás a Paulista inteira está homenageando o centenário dessa música que faz o Brasil conhecido e amado em boa parte do mundo. Muito mais – e ainda bem! – do que o narigudo ‘dono’ da Fiesp ou qualquer político brasileiro fora o Lula.

Eles estavam tocando no carro um samba ridicularizando o PT. A parte que ouvi eram uns versos criticando a ciclovia do Haddad, dizendo que estavam vazias e que não tinha ninguém pra pedalar. Olhei pra pista, e naquele exato momento uns dez ciclistas desviavam dos ‘manifestantes’ que a ocupavam, obrigando-os a sair da ciclovia. Se o cantor não conseguiu – ou não quis – ver esses ciclistas, a tia Ciata é que pelo jeito ele não vai ver. Será que ela está rindo dele, pedindo perdão aos deuses do samba por aqueles músicos não saberem o que estão fazendo, por não conseguirem vê-la ali resistindo a tudo, dando esperança a quem passa.. ? .. ou estará triste em ver a criação de seu terreiro tão profanada, cantada pra defender os interesses da casa grande ainda por cima numa manifestação fake?

Não vi como era a banda, mas fiquei pensando se são cegos que não querem ver ou apenas não conseguem. Por ignorância, preguiça ou desinteresse concreto pela trajetória da música que eles estão ali usando de uma forma tão contrária à sua história.

E a tia Ciata só olhando. A força que ela representa ali, o símbolo da invenção e prática prazerosa do samba, uma mulher, como a nossa presidenta eleita, uma mulher como tantas que estão agora lutando pela democracia, contra essa direita machista, misógina, uma mulher como as que levaram flores pra presidenta, como as que foram detidas por se manifestarem contra o golpe no voo com deputados golpistas.

Será que ela está pensando no quanto o samba foi proibido, por ser coisa de ‘preto, pobre, vagabundo’ ? Ou lembrando do sucesso dos Oito Batutas em Paris, que não podiam tocar nos cinemas do Rio porque eram pretos na maioria? Vendo ali de cima o quanto demoramos pra ver que o Brasil é, sim um país racista, e que ao menos nesses últimos anos de governo (mais) popular avançamos – com muito ainda a avançar – na direção de um país mais justo? E que todas essas conquistas estão a ponto de descer pelo ralo pra ter que começar tudo de novo?

Ah, tia Ciata . .. . pelo menos te vi ali.  Porque o Brasil criou o samba, e vai conseguir sair dessa ! !

 

*foto do banner na av. Paulista em SP, em frente ao prédio da Fiesp, homenageando tia Ciata.

CANTAR

cantar lestranj

Ver ouvir alguém cantando.

Há os que sabem ouvir.

Há os que soltam a voz, os que prendem, os que cantam com a cabeça, com o corpo, com a buceta, com o pau, com o cu, os que pisam no chão, os que saem do chão, os que fazem uma boca pra cantar, os que cantam como falam, os que inventam uma voz cantora, os que cantam as palavras, os que cantam as notas, os que cantam com a harmonia, os que vão pelo ritmo, os que cantam sozinhos, os que cantam junto.

Os que cantam forte e se fazem ouvir. Os que cantam baixo e criam silêncios. A voz agradável, a voz suave, doce, a sensual, a cheia de nervos, a cheia de ar, a resfolegante, a voz que mascara, a que revela. A voz aguda, a fina, a estridente, a pontuda, a firme, a gorda, a cheia, a grave, a profunda. A que esquenta, a que irrita, a que machuca o ouvido, a que não chega até ele.

A orgia de cantar junto, sentir suas ondas vibrando, entrando e saindo de si e dos outros que cantam também e emitem ondas que batem, que entram e saem de todos, vibram juntas e separadas, promiscuidade de sons, de ares, hálitos, calores, alturas, intensidades, espasmos, êxtases.

Os que arriscam sem medo graves e agudos, independente da capacidade ou experiência da voz em seguir o ímpeto. Os que podem ter grande extensão mas não se arriscam. E mostram mais. Os que não abrem a boca, os que cantam antes de ouvir, os que disparam no ritmo, os que ficam pra trás, os que estão aqui, os que não, os que cantam com as mãos, com os olhos, com o coração. Os que tensionam o braço, o pescoço, a garganta, a boca. Os que cantam com alegria, medo ou dor.

Mas todos, todos, se abrem, se jogam, se mostram, e depois de cantar por algumas horas estão mais bonitos.

 

*ilustração de Lestranj Oão

**texto escrito no fim do primeiro mês dos trabalhos com a Universidade Antropófaga – cadernos de atuação 2015.

O mais que perfeito

*conto do livro Então é isso?!  que há de existir

 

O MAIS QUE PERFEITO  

(pétala de rosa)

 

Andava pensando porque não fodera mais na vida.

O mais que perfeito. Seu marido, o mais que perfeito. Um homem exemplar, quarenta e cinco anos juntos, três filhos, sete netos. Um mau negócio do filho, que confiara num sócio muito honesto, ah, meu pai que dizia se alguém diz de outro alguém que fulano é muito honesto, pode desconfiar. Ou se é honesto ou não é. E ele confiara. Se fodera.

Mas vai entender os caminhos que a vida nos apresenta. É só saber ver, aprendera naqueles livros de autoajuda que não ajudaram muito, e até ocuparam um tempo que pena que não usara para outros fins, mas o presente é o que interessa, o tempo perfeito já fora, as pessoas teimam em dizer que é a juventude o mais que perfeito tempo, mas pra ela o mais que perfeito já era. O negócio é agora.

Perderam tudo. Até o sítio foi na falência do filho, e agora pra não perder o apartamento onde moram ela voltou a trabalhar. É, sessenta e nove anos e daí, sentia-se bem e animada. Seus anos de colégio de freira estudando francês finalmente lhe seriam úteis. Conhecera nas aulas de yoga um rapaz muito simpático que falava sempre com ela, tinham alguns autores preferidos comuns, falavam de Paris, da neve, histórias de reis, museus, que ela conhecera em viagens de lua de mel, bodas de papel, prata, e ele não, nunca fora, mas conhecia bem dos livros que lera. Ele começou a tirar dúvidas com ela, contar dos textos novos, dublagem de filmes, documentários, palestras. Ela comentara com ele que outrora ensinara francês, ele perguntou se ela fazia traduções. Era a oportunidade.

Até bula de remédio traduziu. Aos poucos ele foi lhe passando textos mais complexos. Artigos de revistas femininas, documentos de estrangeiros para imigração, currículos para bolsas de estudo, narração de documentários, diálogos de filmes. Até que um dia ele chegou com um livrinho pequeno, velhinho, que encontrara por acaso em um sebo. Entregou a ela e pediu que lesse. Que dissesse depois o que achara. Se topava traduzir.

Nos dicionários que tinha em casa não encontrava nada daquilo. Já há alguns anos frequentava uma lan house para terceira idade, com monitores que orientavam os velhos que não se davam muito bem com o mundo virtual. Ali encontraria o que procurava. Dicionários virtuais.

Sites pornográficos ali eram discretamente repelidos, mas ninguém suspeitara do conteúdo do que andava buscando. No início era o verbo. Fora. E foi assim que foi descobrindo palavras que não conhecia, que significavam atos que não praticara, talvez porque não havia palavras que os significassem em português? Até o latim das missas de outrora era mais rico em vocabulários libertinos.

A primeira palavra pela qual se apaixonou, e na sequência pelo que significava a palavra, foi godemichê. Em algum lugar encontrou consolo, mas não significava o que queria dizer. Vibrador muito menos, já que o godemichê tradicional não vibrava. E outra, não precisava de consolo, queria era novas ideias. Ainda tinha bastante força e ritmo nas mãos, preferia o sistema biomecânico, ou seja, com as próprias mãos, sentia mais vigor. E era um ótimo exercício para os braços. E o significado, dá-me alegria, dá-me prazer, me faz gozar, tudo isso de bom e ainda estava aprendendo latim! Sim, vinha do latim, godemichet, rejouis-moi, não se aguentou, contou pro marido, que já observara a mudança na esposa, cada vez mais animada, acordava dizendo que tivera um sonho bom, andara descobrindo coisas, aprendendo…

Descobrira uma expressão, e não achava paralelo em português. Sentiu-se novamente uma ignorante no assunto, quarenta e cinco anos de casada e o marido não era assim um especialista nem em expressões libertinas francesas e infelizmente muito menos nos atos que elas podiam descrever. Faire feuille de rose, que poético, fazer pétala de rosa, só de brincadeira pedira a seu marido à noite, para fazer-lhe um pouco de pétala de rosa. Ele não entendeu, mas deu-lhe um beijo de borboleta muito carinhoso, de que ela sempre gostara muito quando mais jovem, um piscar de olhos sobre a bochecha, chegara até o pescoço já com uma expressão quase safada, J. era mesmo um romântico. Como explicar a ele que estava descobrindo novas expressões, e que esta poética fazer pétala de rosa era nada menos que dar ou receber uma lambida no cu? Perguntou às amigas da aula de pilates, mas nenhuma sabia o que era, e ela fingiu ainda não saber também. Passou então a imaginar quantas pessoas fariam pétala de rosa em seu prédio. O casal vizinho? Ouvira os gritos da mulher, uma cinquentona gorda sempre de cara boa, será? Pensou que sim, eles deviam saber fazer muitas coisas sem palavras em português para definir. E o casal de cima, dois homens, esses provavelmente faziam muita pétala de rosa, o nome já significava, casal gay, estavam sempre alegres, animados. Será que só ela e o marido não faziam pétala de rosa?

Estava entusiasmada, aprendera outra. Faire minette. Que gracioso. Foi descobrir em dicionários de gírias francesas do século XVII. Chupar buceta… que interessante, por que não temos uma expressão assim em português? Fazer minete, fazer mimi para os íntimos. Redundante. Apesar de não conhecer muito a prática, tinha certeza que isso sim, muita gente fazia. Será que só não ela e seu marido? J. sempre fora muito respeitador. Ela fora feliz assim com ele, sentia-se preservada das maldades do mundo. Mas agora lendo tudo aquilo não podia evitar de sentir uma certa curiosidade. Se todas aquelas palavras e expressões existiam, é porque deviam dar alegria às pessoas. A exemplo do godemichê. Me dá alegria, prazer, me faz gozar! Sim, ter um godemichê, fazer minete com as amigas? Ou pedir pro marido? A essa altura da vida, qual o problema em experimentar novas práticas? Só os dois em casa, nunca gostara muito de pôquer bisca ou truco, por que não experimentar as novas palavras na prática?

Resolveu tentar.

O marido também se ocupava com algumas aulas grátis na vizinhança, mas separado dela, pra sentir saudades e encontrá-la à noite pro jantar. Se viravam como podiam com o excesso de tempo e a falta de dinheiro.

Comprara um vinho. Gastara quase tudo o que recebera com a última tradução, justamente um conto anônimo francês do século XVII. Ou de agora mesmo, não tinha certeza do alcance da cultura nem do caráter de pesquisador de seu colega de yoga, mas também pouco se importara. O que contava era o conteúdo, a inspiração que dera e, claro, os trocados suficientes para comprar aquela garrafa. Aquelas, eram duas. Sentia-se na Paris seiscentista, ou uma camponesa do sul da França, trabalhando nas vinhas, pisando as uvas, de sol a sol nas plantações, e à noite em festas bárbaras. Foi contando algumas dessas histórias para o marido, já na terceira taça de vinho, resolveram se recostar num canto mais confortável da casa, à luz de velas do jantar, tudo mais bonito, quase rodando, um calor vindo de dentro, do vinho, da pimenta da comida, das velas…

Vão descobrindo prazeres, lugares nunca antes tocados. Tinham tempo! Um belo dia, depois de gloriosos momentos juntos, o godemichê, sucessivas minetes, ela soltou esguichos no rosto do marido. Na hora ficara envergonhada, achou que estava tendo problemas de falta de retenção urinária, foi ao médico. Descobriu que estava começando um novo momento em sua vida, ejaculara! sim, as mulheres ejaculam, esporram, mas ela não conhecia nenhum termo específico pra isso, em português – ao menos em seu círculo de amigas – nunca ouvira falar nada parecido. Ou seja, não existia. Viu que em francês usavam muito o termo descarregar, para ejaculação masculina e feminina, e aquela passou a ser a senha entre ela e o marido. Acho que hoje quero descarregar um pouco… falavam isso na frente dos filhos, netos, de amigos, ninguém entendia ou não percebia mesmo o sorrisinho safado dos dois. Anoitecera. Seria mais uma noite de delícias.

E mais tantas palavras a aprender.

primeiro post

 

canastra4É um convite. Finalmentecanastra4 fiz um site, ou blog. Pra organizar a vida. Já que a cabeça . . .

Andava com dúvidas. A essa altura da vida, querendo entender o que passei fazendo todos esses anos. Como cantora sou ótima atriz, como atriz sou uma boa corifeia, animadora de atuadores e públicos cantores em potencial. Toco cavaquinho, violão, e tento tocar um pouco de piano agora pra na próxima encarnação já chegar um pouco mais preparada. Mas o que gosto mesmo de tocar é percussão, que não sei. Me formei jornalista, que no meio do curso, depois de uma parada de um ano pra viajar de mochila nas costas, me desiludi com o jornalismo, daí fiz publicidade e foi pior ainda, então acabei me formando nos dois, já que comecei a não me ver fazendo nem uma coisa nem a outra pelo resto da vida. Se eu imaginasse que o jornalismo ia virar isso que estamos vendo hoje no Brasil… Mas com curso superior teria direito a cela especial na prisão. É verdade isso? Não precisei usar. Ainda.

Escrevo desde sempre, e apesar de ter estudado inglês por vários anos, acabei falando melhor francês e a sorte da vida me fez íntima porque tradutora – ou vice-versa – de escritores geniais. Vou escrever aqui com uma certa frequência. Quero muito que alguém se interesse e leia. Na contramão desses tempos de agressões pela internet, tenho gostado mais ainda agora de conhecer as pessoas pelo que escrevem. Quero experimentar isso mais direto nas duas mãos. Vou postar coisas que escrevi em outras épocas também, e que saíram aqui e ali, e que ainda estão valendo pra hoje.

Impressões pelo mundo de fora e de dentro, música, teatro, pessoas, lugares.

Organizei também o que venho cantando, compondo, gravando. Com muitos, diferentes e inspiradores parceiros. E como costurei isso com o teatro. As músicas de teatro são mais complicadas de achar, mas um dia vou conseguir organizar isso também.

Então entra aqui, seja bem vindx, comente se quiser.

É uma liberdade muito boa ser o que se é.

E que as deusas e deuses encham de alegrias, saúde, fartura e muuuuuuito amor minhas parceiras na invenção desse meu mundinho virtual. Todo meu amor e meu muito obrigada às antropófagas Brenda Amaral e Maria Bitarello, companheiras de leite das vacas e conversas sobre o cosmos.

*já vou publicar meu segundo post.  meu conto mais recente, desde que entrei de novo nesse mundo da tradução de libertinos.