{"id":303,"date":"2016-04-16T00:30:18","date_gmt":"2016-04-16T03:30:18","guid":{"rendered":"http:\/\/leticiacoura.com.br\/?p=303"},"modified":"2016-04-28T17:23:45","modified_gmt":"2016-04-28T20:23:45","slug":"o-mais-que-perfeito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/leticiacoura.com.br\/en\/o-mais-que-perfeito\/","title":{"rendered":"O mais que perfeito"},"content":{"rendered":"<p>*conto do livro <em>Ent\u00e3o \u00e9 isso?!<\/em> \u00a0que h\u00e1 de existir<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O MAIS QUE PERFEITO \u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>(p\u00e9tala de rosa)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Andava pensando porque n\u00e3o fodera mais na vida.<\/p>\n<p>O mais que perfeito. Seu marido, o mais que perfeito. Um homem exemplar, quarenta e cinco anos juntos, tr\u00eas filhos, sete netos. Um mau neg\u00f3cio do filho, que confiara num s\u00f3cio muito honesto, ah, meu pai que dizia se algu\u00e9m diz de outro algu\u00e9m que fulano \u00e9 muito honesto, pode desconfiar. Ou se \u00e9 honesto ou n\u00e3o \u00e9. E ele confiara. Se fodera.<\/p>\n<p>Mas vai entender os caminhos que a vida nos apresenta. \u00c9 s\u00f3 saber ver, aprendera naqueles livros de autoajuda que n\u00e3o ajudaram muito, e at\u00e9 ocuparam um tempo que pena que n\u00e3o usara para outros fins, mas o presente \u00e9 o que interessa, o tempo perfeito j\u00e1 fora, as pessoas teimam em dizer que \u00e9 a juventude o mais que perfeito tempo, mas pra ela o mais que perfeito j\u00e1 era. O neg\u00f3cio \u00e9 agora.<\/p>\n<p>Perderam tudo. At\u00e9 o s\u00edtio foi na fal\u00eancia do filho, e agora pra n\u00e3o perder o apartamento onde moram ela voltou a trabalhar. \u00c9, sessenta e nove anos e da\u00ed, sentia-se bem e animada. Seus anos de col\u00e9gio de freira estudando franc\u00eas finalmente lhe seriam \u00fateis. Conhecera nas aulas de yoga um rapaz muito simp\u00e1tico que falava sempre com ela, tinham alguns autores preferidos comuns, falavam de Paris, da neve, hist\u00f3rias de reis, museus, que ela conhecera em viagens de lua de mel, bodas de papel, prata, e ele n\u00e3o, nunca fora, mas conhecia bem dos livros que lera. Ele come\u00e7ou a tirar d\u00favidas com ela, contar dos textos novos, dublagem de filmes, document\u00e1rios, palestras. Ela comentara com ele que outrora ensinara franc\u00eas, ele perguntou se ela fazia tradu\u00e7\u00f5es. Era a oportunidade.<\/p>\n<p>At\u00e9 bula de rem\u00e9dio traduziu. Aos poucos ele foi lhe passando textos mais complexos. Artigos de revistas femininas, documentos de estrangeiros para imigra\u00e7\u00e3o, curr\u00edculos para bolsas de estudo, narra\u00e7\u00e3o de document\u00e1rios, di\u00e1logos de filmes. At\u00e9 que um dia ele chegou com um livrinho pequeno, velhinho, que encontrara por acaso em um sebo. Entregou a ela e pediu que lesse. Que dissesse depois o que achara. Se topava traduzir.<\/p>\n<p>Nos dicion\u00e1rios que tinha em casa n\u00e3o encontrava nada daquilo. J\u00e1 h\u00e1 alguns anos frequentava uma lan house para terceira idade, com monitores que orientavam os velhos que n\u00e3o se davam muito bem com o mundo virtual. Ali encontraria o que procurava. Dicion\u00e1rios virtuais.<\/p>\n<p>Sites pornogr\u00e1ficos ali eram discretamente repelidos, mas ningu\u00e9m suspeitara do conte\u00fado do que andava buscando. No in\u00edcio era o verbo. Fora. E foi assim que foi descobrindo palavras que n\u00e3o conhecia, que significavam atos que n\u00e3o praticara, talvez porque n\u00e3o havia palavras que os significassem em portugu\u00eas? At\u00e9 o latim das missas de outrora era mais rico em vocabul\u00e1rios libertinos.<\/p>\n<p>A primeira palavra pela qual se apaixonou, e na sequ\u00eancia pelo que significava a palavra, foi godemich\u00ea. Em algum lugar encontrou consolo, mas n\u00e3o significava o que queria dizer. Vibrador muito menos, j\u00e1 que o godemich\u00ea tradicional n\u00e3o vibrava. E outra, n\u00e3o precisava de consolo, queria era novas ideias. Ainda tinha bastante for\u00e7a e ritmo nas m\u00e3os, preferia o sistema biomec\u00e2nico, ou seja, com as pr\u00f3prias m\u00e3os, sentia mais vigor. E era um \u00f3timo exerc\u00edcio para os bra\u00e7os. E o significado, d\u00e1-me alegria, d\u00e1-me prazer, me faz gozar, tudo isso de bom e ainda estava aprendendo latim! Sim, vinha do latim, godemichet, rejouis-moi, n\u00e3o se aguentou, contou pro marido, que j\u00e1 observara a mudan\u00e7a na esposa, cada vez mais animada, acordava dizendo que tivera um sonho bom, andara descobrindo coisas, aprendendo&#8230;<\/p>\n<p>Descobrira uma express\u00e3o, e n\u00e3o achava paralelo em portugu\u00eas. Sentiu-se novamente uma ignorante no assunto, quarenta e cinco anos de casada e o marido n\u00e3o era assim um especialista nem em express\u00f5es libertinas francesas e infelizmente muito menos nos atos que elas podiam descrever. <em>Faire feuille de rose<\/em>, que po\u00e9tico, fazer p\u00e9tala de rosa, s\u00f3 de brincadeira pedira a seu marido \u00e0 noite, para fazer-lhe um pouco de p\u00e9tala de rosa. Ele n\u00e3o entendeu, mas deu-lhe um beijo de borboleta muito carinhoso, de que ela sempre gostara muito quando mais jovem, um piscar de olhos sobre a bochecha, chegara at\u00e9 o pesco\u00e7o j\u00e1 com uma express\u00e3o quase safada, J. era mesmo um rom\u00e2ntico. Como explicar a ele que estava descobrindo novas express\u00f5es, e que esta po\u00e9tica fazer p\u00e9tala de rosa era nada menos que dar ou receber uma lambida no cu? Perguntou \u00e0s amigas da aula de pilates, mas nenhuma sabia o que era, e ela fingiu ainda n\u00e3o saber tamb\u00e9m. Passou ent\u00e3o a imaginar quantas pessoas fariam p\u00e9tala de rosa em seu pr\u00e9dio. O casal vizinho? Ouvira os gritos da mulher, uma cinquentona gorda sempre de cara boa, ser\u00e1? Pensou que sim, eles deviam saber fazer muitas coisas sem palavras em portugu\u00eas para definir. E o casal de cima, dois homens, esses provavelmente faziam muita p\u00e9tala de rosa, o nome j\u00e1 significava, casal gay, estavam sempre alegres, animados. Ser\u00e1 que s\u00f3 ela e o marido n\u00e3o faziam p\u00e9tala de rosa?<\/p>\n<p>Estava entusiasmada, aprendera outra. <em>Faire minette<\/em>. Que gracioso. Foi descobrir em dicion\u00e1rios de g\u00edrias francesas do s\u00e9culo XVII. Chupar buceta&#8230; que interessante, por que n\u00e3o temos uma express\u00e3o assim em portugu\u00eas? Fazer minete, fazer mimi para os \u00edntimos. Redundante. Apesar de n\u00e3o conhecer muito a pr\u00e1tica, tinha certeza que isso sim, muita gente fazia. Ser\u00e1 que s\u00f3 n\u00e3o ela e seu marido? J. sempre fora muito respeitador. Ela fora feliz assim com ele, sentia-se preservada das maldades do mundo. Mas agora lendo tudo aquilo n\u00e3o podia evitar de sentir uma certa curiosidade. Se todas aquelas palavras e express\u00f5es existiam, \u00e9 porque deviam dar alegria \u00e0s pessoas. A exemplo do godemich\u00ea. Me d\u00e1 alegria, prazer, me faz gozar! Sim, ter um godemich\u00ea, fazer minete com as amigas? Ou pedir pro marido? A essa altura da vida, qual o problema em experimentar novas pr\u00e1ticas? S\u00f3 os dois em casa, nunca gostara muito de p\u00f4quer bisca ou truco, por que n\u00e3o experimentar as novas palavras na pr\u00e1tica?<\/p>\n<p>Resolveu tentar.<\/p>\n<p>O marido tamb\u00e9m se ocupava com algumas aulas gr\u00e1tis na vizinhan\u00e7a, mas separado dela, pra sentir saudades e encontr\u00e1-la \u00e0 noite pro jantar. Se viravam como podiam com o excesso de tempo e a falta de dinheiro.<\/p>\n<p>Comprara um vinho. Gastara quase tudo o que recebera com a \u00faltima tradu\u00e7\u00e3o, justamente um conto an\u00f4nimo franc\u00eas do s\u00e9culo XVII. Ou de agora mesmo, n\u00e3o tinha certeza do alcance da cultura nem do car\u00e1ter de pesquisador de seu colega de yoga, mas tamb\u00e9m pouco se importara. O que contava era o conte\u00fado, a inspira\u00e7\u00e3o que dera e, claro, os trocados suficientes para comprar aquela garrafa. Aquelas, eram duas. Sentia-se na Paris seiscentista, ou uma camponesa do sul da Fran\u00e7a, trabalhando nas vinhas, pisando as uvas, de sol a sol nas planta\u00e7\u00f5es, e \u00e0 noite em festas b\u00e1rbaras. Foi contando algumas dessas hist\u00f3rias para o marido, j\u00e1 na terceira ta\u00e7a de vinho, resolveram se recostar num canto mais confort\u00e1vel da casa, \u00e0 luz de velas do jantar, tudo mais bonito, quase rodando, um calor vindo de dentro, do vinho, da pimenta da comida, das velas&#8230;<\/p>\n<p>V\u00e3o descobrindo prazeres, lugares nunca antes tocados. Tinham tempo! Um belo dia, depois de gloriosos momentos juntos, o godemich\u00ea, sucessivas minetes, ela soltou esguichos no rosto do marido. Na hora ficara envergonhada, achou que estava tendo problemas de falta de reten\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria, foi ao m\u00e9dico. Descobriu que estava come\u00e7ando um novo momento em sua vida, ejaculara! sim, as mulheres ejaculam, esporram, mas ela n\u00e3o conhecia nenhum termo espec\u00edfico pra isso, em portugu\u00eas \u2013 ao menos em seu c\u00edrculo de amigas \u2013 nunca ouvira falar nada parecido. Ou seja, n\u00e3o existia. Viu que em franc\u00eas usavam muito o termo descarregar, para ejacula\u00e7\u00e3o masculina e feminina, e aquela passou a ser a senha entre ela e o marido. Acho que hoje quero descarregar um pouco&#8230; falavam isso na frente dos filhos, netos, de amigos, ningu\u00e9m entendia ou n\u00e3o percebia mesmo o sorrisinho safado dos dois. Anoitecera. Seria mais uma noite de del\u00edcias.<\/p>\n<p>E mais tantas palavras a aprender.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*conto do livro Ent\u00e3o \u00e9 isso?! \u00a0que h\u00e1 de existir &nbsp; O MAIS QUE PERFEITO \u00a0 (p\u00e9tala de rosa) &nbsp; Andava pensando porque n\u00e3o fodera mais na vida. O mais que perfeito. Seu marido, o mais que perfeito. Um homem exemplar, quarenta e cinco anos juntos, tr\u00eas filhos, sete netos. 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\u00a0que h\u00e1 de existir &nbsp; O MAIS QUE PERFEITO \u00a0 (p\u00e9tala de rosa) &nbsp; Andava pensando porque n\u00e3o fodera mais na vida. 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